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O tocar das trompas na gravura da Descida de Cristo ao Limbo de Andrea Mantegna (c. 1431–1506)
Andre Guimarães Mesquita

Última alteração: 2025-05-24

Resumo


Esta comunicação propõe uma análise iconográfica e interpretativa da presença de trompas feitas de chifres — instrumentos musicais rudimentares — sendo tocadas por figuras demoníacas na gravura da Descida de Cristo ao Limbo, produzida no ateliê de Andrea Mantegna por volta da segunda metade do século XV. A cena, também conhecida pela designação inglesa Harrowing of Hell, integra o ciclo da Paixão de Cristo e teve ampla difusão imagética em toda a Europa medieval e moderna. Neste trabalho, volta-se a atenção à versão gravada derivada do modelo de Mantegna, bem como outras obras que a teriam utilizado como base, observando-se particularmente a expressiva fisicalidade dos pequenos demônios que, ante a chegada triunfal do Salvador e a violenta ruptura dos portões do Inferno, sopram com vigor seus instrumentos sonoros.

A iconografia de demônios soprando trompas, embora não inédita, é relativamente rara no norte da Península Itálica no período em questão. Tais imagens aparecem com mais frequência nas iluminuras medievais com a temática, produzidas na Inglaterra entre os séculos XIII e XIV. O triunfo de Cristo era frequentemente figurado como uma conquista militar — estandarte em riste —, e o soar das trompas representava um alarme bélico — um chamado às armas por parte das forças infernais — ainda que inútil diante da potência divina. No entanto, nas produções italianas — e particularmente nas tradições figurativas padana e veneziana incorporadas por Mantegna — embora o estandarte esteja sempre presente como atributo do Cristo Vitorioso, o motivo das trompas não é recorrente. A presença desses elementos na gravura em estudo suscita, assim, questionamentos sobre seus possíveis antecedentes visuais e literários, e sobre o modo como foram ressignificados no contexto específico do Quattrocento humanista.

Tais elementos compositivos não se limitam apenas a um papel decorativo, mas evidenciam o potencial inovador da obra de Mantegna na redefinição das práticas pictóricas do período. Embora amplamente reconhecida, sua produção permanece frequentemente reduzida pelos parâmetros normativos da História da Arte ao “primeiro momento da tradição clássica” ou às suas características como “artista antiquário”, quando seu verdadeiro valor reside na originalidade e na invenzione.

Ao representar o soprar das trompas, desde a fisicalidade exigida pelo gesto até os efeitos imaginados de seu som, Mantegna mobiliza meios inovadores para interpelar o observador e orientar sua interpretação, estruturando um ambiente espacial e ideológico, e desafiando as noções convencionais do “olhar” no início do Renascimento, mesmo no meio monocromático e ainda incipiente da gravura. Os pequenos demônios que as soam não apenas compõem o cenário infernal da narrativa religiosa, mas corporificam uma tensão expressiva entre o som e o silêncio, a ordem e o caos, o antigo e o novo. O impacto do som das trompas é aqui sugerido pela agitação dos corpos, pela expressão dos rostos e pela deformação das formas: tudo vibra em torno do acontecimento central — a chegada de Cristo — e os demônios, em seu estrépito desesperado, traduzem visualmente o colapso das forças infernais e a vitória do Salvador sobre a Morte e sobre o Mal.

Embora seja difícil estabelecer de forma precisa as fontes iconográficas diretas que informaram a composição de Mantegna, a presença de certos elementos clássicos sugere a mediação de narrativas da Antiguidade reinterpretadas sob o viés moralizante do novo humanismo cristão. A aparência visual bastante singular desses pequenos demônios, por exemplo, remete muito mais a figuras clássicas da mitologia que poderiam ser encontradas na literatura e na arte romana, do que propriamente aos tradicionais atributos dos diabos do catolicismo ocidental. É possível, por exemplo, reconhecer ecos das Metamorfoses de Ovídio, cujos episódios povoados por monstros marinhos e dramaticidade narrativa parecem encontrar reflexo nos demônios exasperados que povoam a cena. A operação de Mantegna não se limita, no entanto, à citação visual, mas consiste numa apropriação simbólica, onde a passagem clássica é evocada junto aos seus ideais morais, que são reconduzidos a novos horizontes de sentido em imagens religiosas tradicionais, mas profundamente afinadas com os debates filosófico-morais de sua época.

A gravura no último quarto do século XV, nesse contexto, surge não apenas como suporte de difusão técnica, mas como linguagem visual sofisticada, plenamente consciente de seu papel na construção e circulação de significados. A oficina de Mantegna, em particular, tornou-se um centro de irradiação de modelos iconográficos e estilísticos, cujas matrizes, muitas vezes adaptadas e replicadas, alcançaram públicos diversos em geografias amplas. A difusão da imagem da Descida ao Limbo inscreve-se nesse processo, atuando tanto no plano devocional, quanto no âmbito da fruição estética e do colecionismo nascente do Quattrocento, que valorizava a invenção compositiva e o virtuosismo técnico das obras. Exemplares dessa imagem ainda hoje integram importantes acervos ao redor do mundo — entre eles, um exemplar conservado no Tesouro da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro.

O aspecto central a ser investigado neste estudo reside, portanto, na articulação entre som e imagem, corpo e espaço, figuração e significação no interior de uma linguagem gráfica emergente. A representação visual do som — especialmente do som demoníaco — oferece um campo fecundo para compreender as estratégias de interpelação do espectador elaboradas por Mantegna e seu círculo. Ao criar um ambiente infernal em que o som imaginado complementa a narrativa, o artista explora os limites da gravura como meio sensível e narrativo.

A tensão entre ruído e redenção encenada na gravura adquire, assim, um sentido dramatúrgico: Cristo não apenas desce ao Inferno, ele o desestrutura. A violência da entrada é simultaneamente simbólica e sensorial, e a resposta sonora dos demônios revela o abalo da ordem infernal diante da autoridade redentora. As trompas não anunciam apenas o alarme de guerra, mas lamentam, gritam, reagem. Elas corporificam a dimensão dissonante da salvação diante o Inferno, desafiando a composição iconográfica da cena com um elemento não-visual e ampliando seu potencial de compreensão. Em oposição aos coros celestiais e anjos musicistas, que tradicionalmente anunciam a chegada de Cristo em variadas iconografias, as forças infernais sopram os instrumentos não como arautos de uma vitória, mas como testemunhas de sua ruína. A cena não retrata apenas um evento teológico — o resgate das almas justas do Limbo — mas sim um embate cósmico entre ordem e caos, luz e sombra, som e silêncio. Um abalo à ordem infernal: harrowing of Hell.

Com este trabalho, pretende-se contribuir para a compreensão das gravuras de Mantegna como espaços de invenção e reflexão, em que o recurso ao mundo clássico e à tradição cristã se articula a um programa visual consciente e sofisticado. Ao estudar a representação visual do soprar das trompas no contexto da Descida ao Limbo, e a forma como a invezione de Mantegna relaciona o som, os gestos e as formas, torna-se possível entrever não apenas a originalidade técnica e formal do artista, mas também os horizontes teóricos de sua produção e recepção.

 

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Palavras-chave


Andrea Mantegna; Gravura; Descida ao Limbo

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